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Prevenção e Saúde

Em Defesa da Psicanálise

Márcio José Dal-Bó

Publicado 27/07/2016 17:20

ECOS

 

          Há algumas semanas, em um congresso científico em Buenos Aires, um eminente cientista, Ivan Izquierdo, pesquisador e chefe do laboratório de pesquisas sobre memórias na PUCRS, deu uma declaração à jornalista Juliana Cunha em matéria da Folha de São Paulo, na qual afirmava que a neurociência suplantou a psicanálise e que, como cientista, não podia entender a psicanálise como ciência já que inconsciente não pode ser localizado e como cientista, que é, disse: “A psicanálise foi superada pelos estudos da neurociência, é coisa de quando não tínhamos condições de fazer testes,  ver o que acontecia no cérebro. Hoje alguém vem me falar de inconsciente? Onde fica? Sou um cientista, não posso acreditar em algo só porque é interessante.” Declaração forte, no mínimo polêmica. Contudo, vindo da fala e, principalmente, do cérebro de um cientista, pode influenciar muitas pessoas que pretendem seguir o caminho da ciência e, é possível imaginar, que esta seja uma das intenções.

          Ele é considerado uma autoridade na área de neurociências e vários de seus trabalhos servem de referência a outros pesquisadores. E é esta situação que chama atenção, pois  segundo se sabe, a ciência é feita a partir de um somatório de estudos e vai sendo construída ao longo do tempo.

         Estudos de diferentes pesquisadores, brilhantes como Izquierdo, tem mostrado evidências da eficácia e efetividade do método psicanalítico e da psiquiatria dinâmica.

         Eric R. Kandel, prêmio Nobel em 2000, em seu livro Memórias, da mente às moléculas (2003, p. 28)  diz: “Memória  não declarativa também resulta da experiência, porém é expressa como uma mudança de comportamento não como uma lembrança propriamente dita, a memória não declarativa é inconsciente” . No mesmo livro (p. 33) ele escreve o seguinte: “Estudos têm revelado uma inesperada variedade de memórias não declarativas, inconscientes, e identificado os sistemas encefálicos importantes para cada um desses tipos. Esses tipos de memória contêm os traços das experiências passadas e exercem fortes influências sobre o comportamento e a vida mental, porém podem operar fora da consciência e não requer qualquer conteúdo de memória consciente.”

          Este livro não é uma defesa ou sobre psicanálise, pois Kandel, não raro, é um crítico da psicanálise. É um livro sobre memórias e neurociência e deixa claro que há memórias que não podem ser acessadas por evocação voluntária,  mas que, ao mesmo tempo, influenciam o comportamento humano, tanto no aspecto normal como patológico.

          David E. Zimerman em seu livro Vocabulário Contemporâneo de Psicanálise (2009, p. 213) diz que Freud, de forma esquemática, postulou sobre inconsciente:

1.       É um reservatório de conteúdos (memórias) reprimidos.

2.       Estes conteúdos são compostos de pulsões (limite entre somático e psíquico, instintos) e seus derivados, também são compostos de memórias que foram, no passado, conscientes e que foram reprimidas (esquecidas).

3.       Os conteúdos reprimidos no inconsciente são fortemente investidos de energia e através desta energia buscam retornar à consciência e à ação sendo responsáveis tanto por processos normais como os sonhos, atos falhos, lapsos, como também por processos patológicos como os sintomas.

          Freud escreveu o texto sobre o inconsciente em 1915  e Kandel escreveu este livro sobre neurociência e memórias em 2003, ambos a partir de insights e experimentação, claro que diferentes.  Sem ingenuidade ou influenciados por pouca leitura, é provável que este dois pesquisadores não estivessem falando estritamente, exatamente sobre o mesmo objeto de estudo, mas será que não é possível ver aproximações entre estes dois insights?

          Glen O. Gabbard, psiquiatra e psicanalista americano, professor da State  University of New York e da Baylor College of Medicine, em Houston, Texas, em seu livro Psiquiatria Psicodinâmica na prática clínica (2016, p. 3 e 4) diz: “O termo psiquiatria psicodinâmica se refere, em geral, a uma abordagem calcada na teoria e no conhecimento psicanalíticos.” E  continua: “O psiquiatra psicodinâmico, não pode mais praticar uma psiquiatria separada das influências corporais e socioculturais. O drástico progresso na genética e na neurociência fortaleceu, paradoxalmente, a posição da psiquiatria psicodinâmica. Agora temos evidências persuasivas de que muito da vida mental é inconsciente e que forças sociais do ambiente moldam a expressão dos genes e de que a mente reflete a atividade do cérebro. A neurociência contemporânea não tenta reduzir tudo a genes ou a entidades biológicas. Os neurocientistas bem informados focam uma abordagem integrativa em vez de redutiva e reconhecem que os dados psicológicos são tão importantes quanto os achados biológicos.”

          Gabbard ilustra (p. 5), com um exemplo, a influência de um trauma interpessoal sobre a biologia e a psicologia de uma pessoa. Cita Heim (Heim et al., 2013), que usa exame de imagem de adultos que sofreram abusos durante a infância. “Em estudos controlados, essas crianças que sofreram abusos tornaram-se adultos com adelgaçamento cortical numa região do cérebro chamada ‘homúnculo’. Essa experiência pode deixar o indivíduo ‘dormente’ na área genital quando adulto. E essa experiência de frieza sexual  poderá moldar como um jovem integra sua sexualidade no restante de sua vida adulta.”

         Quando fala sobre eficácia de psicoterapia psicodinâmica, Gabbard (p. 127) cita alguns autores (Luborsky et al., 1975; Smith et al., 1980; Shedler, 2010) que mostraram evidências da eficácia deste tratamento e que esta evidência estava em um nível que já se justificaria a interrupção do ensaio clínico, já que não seria ético privar os pacientes de um tratamento tão efetivo. Logo a seguir,  ele cita várias metanálises (Anderson e Lambert, 1995; Leichsenring et al,2004; Abbass et al, 2006; Leichsenring e Rabung, 2008) que comparavam grupos expostos a esta psicoterapia com outros grupos expostos a outras psicoterapias e/ou comparavam com grupo-controle não expostos a nenhuma psicoterapia. Todas estas metanálises mostravam evidências sobre a eficácia da psicoterapia dinâmica, tanto a breve como a de longa duração. 

          É possível citar ainda André Grenn, eminente psicanalista francês, que em seu livro Orientações para uma psicanálise contemporânea (2008, p. 317) fala sobre o saber científico, o inconsciente e a ciência. Aqui o autor escreve sobre a complexidade de pensar o psiquismo e as dificuldades, tanto da psicanálise quando do método científico, em lidar com objetividade, subjetividade e as relações afetivas, aspectos naturais na mente humana.

          Otto F. Kernberg, Medical Director do New York Hospital, professor de psiquiatria no Cornell University Medical College e ainda analista didata e supervisor no Columbia University Center no livro anual de psicanálise (2009, p. 215), traduzido para o português, faz um artigo intitulado  O conceito de pulsão de morte: Uma perspectiva clínica. Neste artigo ele descreve estudos conduzidos pelo Institute of Personality Disorders do Weill Medical College, em pacientes boderline observando a relação entre a neurobiologia, a ativação dos afetos e a integração destes conceitos na teoria psicanalítica.

          Estes exemplos e estudos, trazem evidências sobre a integração dos aspectos biológicos e conflitos psicológicos no desenvolvimento do psiquismo humano, normal ou patológico. Contudo, os pesquisadores acima citados, não deixaram de falar sobre as dificuldades naturais de se construir o conhecimento e a ciência e, em nenhum momento, passam a impressão de estarem trazendo uma verdade definitiva.

          Por outro lado, Fabio Rauen, doutor em linguística pela universidade Federal de Santa Catarina, em seu livro Roteiros de Pesquisa (2006), cita alguns autores que falam sobre ciência:      Para Ander-Egg (1978, p. 15)  “ciência é um conjunto de conhecimentos, certos ou prováveis, obtidos metodicamente, verificáveis e que fazem referência a objetos de uma mesma natureza.” Rauen completa: “Ciência é certa ou provável, porque não se pode atribuir certeza absoluta a estudos científicos.” Segundo Popper (1975, p. 85), “ciência consiste em conjecturas controladas pela discussão crítica, assim como pela técnica experimental.” Logo, a ciência é hipotética e provisória. Para Rauen, Popper não descreveu um método que buscasse certezas, mas sim tentasse evitar os erros.

          Já quando este mesmo autor, Rauen, descreve o conhecimento religioso fala de um conhecimento obtido através de contatos com determinados indivíduos ou divindades. Ele informa que a religião se sustenta por dogmas. Segundo o dicionário Houaiss, dogmas são pontos fundamentais de uma doutrina religiosa que são verdades inquestionáveis.

          Refletindo a declaração de Izquierdo, parece que para ele a psicanálise está ultrapassada e não é ciência, e que essa ideia dele é uma verdade absoluta, inquestionável.

          Essa forma de pensar de Izquierdo, como esclarecem os conceitos acima sobre o que é pensamento científico e dogmático, parece aproximar-se de um pensamento dogmático, e esta contradição não pode deixar de ser percebida e destacada quando se lê ou ouve uma pessoa falando em nome da ciência. Quem deseja contribuir com a construção do conhecimento científico deve refletir sobre isso.  

 

Referências

 

1.        Gabbard, O. Glen. Psiquiatria Psicodinâmica da Prática Clínica. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.

2.       Green, André. Orientações Para Uma Psicanálise Contemporânea. São Paulo: Imago, 2008.

3.       Houaiss, Antônio. Dicionário Houaiss da língua Portuguesa. 1ª ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

4.       Kandel, R. Eric; Squire, R. Larry. Memória: da Mente às Moléculas. Porto Alegre: Artmed, 2003.

5.       Kernberg, F. Otto. Livro Anual de Psicanálise, Tomo XXV, artigo:  O conceito de pulsão de morte: uma perspectiva clínica. São Paulo: Escuta, 2011.

6.       Rauen, Fábio. Roteiros de Pesquisa. Rio do Sul: Nova Era, 2006.

7.       Ziermerman, E. David. Vocabulário Contemporâneo de Psicanálise. Porto Alegre: Artmed, 2001.

 

Autor

Márcio José Dal-Bó

Médico Psiquiatra. Associado a Associação Catarinense de Psiquiatria/Associação Brasileira de Psiquiatria.

Membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre/Federação Brasileira de Psicanálise/Associação Internacional de Psicanálise.

Mestre em Ciências da Saúde (Unisul.TB-SC).

Coordenador e Professor da disciplina de Saúde Mental no curso de medicina Unisul TB-SC.

 

Correspondência

Rua: Tereza Ghisoni 44B/301 88705-150  Tubarão SC. Brasil.

E-mail: dalbomarcio@gmail.com

Tubarão 05/07/2016.

 

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